A avenida da discórdia

cd005

Uma das coisas coisas que me chamou a atenção desde os primeiros meses aqui no Tocantins tem relação direta com o fato deste ser o estado mais “jovem” da federação: a dificuldade das pessoas em terem clareza para definir o que seria “tipicamente tocantinense”, o que constituiria a identidade regional deste pedaço do Brasil. Lembremos que o território que hoje constitui o Tocantins fazia parte de Goiás até pouco mais de duas décadas atrás, e que boa parte da população têm vínculos bem fortes com os estados do entorno, tais como o Pará e o Maranhão. Neste contexto, é difícil que qualquer coisa que seja apresentada como “típica”, seja esta algum tipo de alimento, uma festa ou uma dança, não seja alvo de disputas com os “vizinhos”, que sempre reivindicarão possuir tais saberes ou exercer tais práticas há mais tempo. Se consideramos a situação peculiar da capital, Palmas, fundada em 1989 e habitada por gente de todos os cantos do país, fica ainda mais evidente o quanto é difícil se chegar a quaisquer consensos acerca da “identidade tocantinense”.

É importante esclarecer, neste momento, que, como cientista social, me esforço para não alimentar ilusões quanto ao caráter “imemorial” e “autêntico” das tradições que contribuem para a construção das identidades de povos e lugares. Lembro sempre do historiador britânico Eric Hobsbawm, que, num famoso livro que organizou juntamente com o colega Terence Ranger mostrou como mesmo aquilo que achamos ser mais “original” pode ter sido manipulado conforme os interesses das elites políticas e intelectuais de um determinado momento histórico. Desta forma, Hobsbawm demonstra que tradições tidas como antigas muitas vezes são, na verdade, bastante recentes ou até mesmo “inventadas”. Tais “tradições inventadas” se consolidam tanto através de referências a situações anteriores como estabelecendo seu próprio passado, a partir de uma repetição quase obrigatória. Nas suas palavras, “a invenção das tradições é essencialmente um processo de formalização e ritualização, caracterizado por referir-se ao passado, mesmo que apenas pela imposição da repetição” (p. 167).

São inúmeros os casos que poderiam ser citados para ilustrar estas reflexões, mas por ora basta lembrar que, no citado livro, o historiador britânico mostra como as ditas “tradições escocesas” foram forjadas por um grupo de irlandeses que migraram para as Highlands e assim agiram para fundar uma memória inexistente e uma “tradição nacional”. No caso brasileiro, podemos destacar o caso do Movimento Tradicionalista Gaúcho, cujo surgimento remonta aos anos 40 do século passado, quando um grupo formado majoritariamente por jovens estudantes vindos do interior, oriundos de famílias de grandes proprietários rurais, se muda para Porto Alegre e passa a se reunir para cultuar um “passado campeiro” idealizado. Em outros termos, tratava-se da celebração de um modo de vida que jamais existiu exatamente daquela forma, mas que foi construído de uma forma tão ideologicamente poderosa que veio a ser difundido pelo Brasil e pelo mundo com o rótulo de “tradições gaúchas” (para mais detalhes, vejam este livro do antropólogo Ruben Oliven).

Pois bem, neste exato momento, aqui em Palmas, a capital do Tocantins, estamos vivenciando um debate para lá de interessante, diretamente relacionado com esta problemática da construção de tradições e identidades regionais. No último dia 07 de abril, a Prefeitura protocolou na Câmara Municipal um projeto de lei propondo a alteração do nome da maior avenida da cidade, que passaria a se chamar Governador Siqueira Campos, ao invés de Theotônio Segurado. O detalhe é que este último foi um jurista português com atuação em movimentos pela emancipação do norte goiano que remontam ao século XIX, enquanto o primeiro foi governador do estado por três mandatos, incluindo-se aí o período imediatamente seguinte à criação do Tocantins, após a promulgação da Constituição de 1988 (veja biografias resumidas de ambos aqui). Ou seja, de um lado um personagem histórico enquadrado em muitas narrativas oficiais como o “iniciador” do movimento que culminou com a separação do território goiano, de outro uma liderança política ainda atuante, mas também possuidora de importância neste processo histórico. Como Siqueira Campos ainda hoje é uma das principais figuras da oposição ao atual governador Marcelo Miranda (antigo aliado seu, mas isto é história para outro post), tal proposta vem despertando reações das mais diversas, com diferentes níveis de exaltação, indo desde a proposição de uma “Moção de Aplausos” por parte de um deputado que foi adversário do prefeito nas últimas eleições municipais até afirmações um professor para quem tal mudança faria a cidade “perder sua identidade”.

Sem negar as questões propriamente políticas envolvidas no projeto, que no mínimo acaba servindo para direcionar os holofotes da mídia para o prefeito de Palmas, gostaria de chamar a atenção para uma questão. Na minha opinião, uma proposição destas só é possível numa cidade e num estado nos quais os processos de construção de uma identidade regional se encontram num momento tão “incipiente” como este que vivemos aqui no Tocantins. Mal comparando, não acho que o Fogaça ou qualquer vereador de Porto Alegre sequer cogitem pensar em mudar o nome da avenida Bento Gonçalves para “avenida Leonel Brizola”, por exemplo. Assim, posso dizer que estou vendo com meus próprios olhos uma disputa que não é apenas política, mas também simbólica, um momento no qual Palmas e o Tocantins discutem acirradamente sobre seus ” pais fundadores”. Por um lado, me parece que o próprio debate atual será um momento crucial nesta trajetória de construção da “identidade tocantinense”. Por outro, sem querer me arriscar num exercício de futurologia mas já o fazendo, me parece que esta alteração, se realizada, poderia acabar “atrasando” a consolidação de um imaginário sobre os “heróis” do estado, uma vez que, mesmo não sendo tão conhecido pela população em geral, a figura de Theotônio Segurado não desperta as paixões partidárias e sectárias nas quais o nome de Siqueira Campos está sempre presente.

Ainda há “soluções alternativas” a serem propostas, como aquela apresentada por um vereador, sugerindo que a segunda maior avenida da cidade, chamada JK, seja a renomeada. Segundo ele, o mítico presidente não teria maior importância na história da emancipação do antigo norte goiano, o que, obviamente, já provocou reações, positivas e negativas

Por enquanto, o certo é que ainda há muita água por rolar nesse debate, e confesso que acho um tanto divertido poder acompanhá-lo de uma posição relativamente distanciada!

Abraços,
Marcio Santos

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Politica, Reflexões, Tocantins

3 Respostas para “A avenida da discórdia

  1. Notileu

    Além de todo o contexto abordado no presente tópico ainda há considerações legais sobre o assunto, afinal é vigente no pais a Lei Federal nº 6.454/77, a qual dispõe sobre a denominação de logradouros, obras, serviços e monumentos públicos, e proíbe, em seu artigo 1º, em todo o território nacional, atribuir nome de pessoa viva a bem público, de qualquer natureza, pertencente à União ou às pessoas jurídicas da Administração indireta.
    Então, mesmo numa simplória interpretação e a despeito de todas a demais argumentaçõers sobre o polêmico assunto, deveria-se aguardar ou providenciar (ha, ha, ha…) o óbito do, por vários motivos, afamado ex-governador para só então dar sequência ao importantíssimo projeto do sempre ocupado poder executivo municipal. Afinal queremos que esta capital, a mais nova do pais, seja cumpridora, pelo menos, da leis federais.

  2. Pereira

    O Tocantins, assim como praticamente todos os estados brasileiros, é uma reunião de “identidades”. O que é “tipicamente” paulista que é só paulista, mineiro que é só mineiro? Até gaúcho com danças e tradições sulistas ultrapassam a fronteira brasileira dividindo-as com “los hermanos”…

    • Caro Pereira:

      Concordo com sua ponderação, sendo que, na verdade, eu diria mais do que isso: TODAS as “identidades regionais” são histórica e socialmente construídas, jamais sendo algo “puro” ou “imaculado”. Todavia, não sei se compreendeste bem meu argumento: quero justamente chamar a atenção para este caráter construído das identidades, porém evidenciando como sempre há, pelo Brasil e pelo mundo, processos de luta simbólica pela definição do que é mais autêntico ou específico de um determinado povo ou lugar. No caso específico do Tocantins, por tratar-se de um estado “recente”, podemos presenciar tais fatos “ao vivo”, o que, no mínimo, é bastante interessante em termos analíticos.

      Abraço,
      Marcio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s