Muito mais que um jogo

Jugar a morir

A partida entre Uruguai e Gana, disputada neste sábado em Johannesburgo, entrará, sem qualquer sombra de dúvida, para a história das Copas do Mundo. Qualquer pessoa que tenha acompanhado ao menos os minutos finais do embate teve uma lição completa sobre as razões que fazem do futebol muito mais que um jogo. Os uruguaios, bicampeões do mundo, porém há anos enfrentando o ostracismo e a decadência, num certo sentido reflexo da estagnação econômica do país, contra a última seleção do continente africano ainda remanescente na competição. Atletas que, em sua maioria, não são protagonistas em seus clubes, apesar de há muito atuarem longe de seus países. Um confronto complicado, onde duas equipes conscientes de suas limitações as superam com garra e disposição comoventes. No primeiro tempo, o gol de Gana, num arremate longo de Muntari; no segundo, os uruguaios empatam com um tirambaço cheio de efeito de Forlán, somatório da qualidade do jogador com as loucuras da famigerada bola Jabulani. Um prorrogação onde o desgaste dos orientales aparentemente daria vantagem aos africanos, melhor preparados fisicamente. Todavia, quando se joga com o coração, todos os limites são superáveis: mais 30 minutos de um jogo parelho e combatido em todos os recantos do gramado. Aproxima-se o final do tempo extra e deixamos de presenciar uma partida de futebol, passando a assistir a história do esporte, bem em frente aos nossos olhos.

Falta duvidosa, nas proximidades da área uruguaia. Os ganenses jogam a pelota para o meio do tumulto, bate e rebate, o gol parece certo… Eis que Luis Suárez, jovem goleador celeste, num ato desesperado daqueles que sabem o significado da expressão jugar a morir, mete a mão na bola, tal qual um arqueiro, simplesmente porque não havia nada mais a fazer. A marcação do pênalti é corretíssima, assim como a expulsão. Trocou-se um gol pela esperança. Asamoah Gyan, o bom centroavante de Gana, possivelmente o melhor jogador africano na Copa 2010, tem a responsabilidade de marcar e colocar sua seleção nas semi-finais. Segundos intermináveis de tensão e silêncio. A bola explode na trave. Alguma das tantas câmeras espalhadas pelo estádio flagra Suárez, até poucos instantes cabisbaixo e desolado, vibrando como se houvesse marcado um gol. Sim, ele não marcou, mas deu à sua seleção, ao seu país, a oportunidade de continuar acreditando na classificação. Valeu a pena: na decisão por pênaltis, duas defesas do guarda-metas Muslera, sacramentadas pela absolutamente debochada “cavadinha” na cobrança do avante Loco Abreu, colocaram o Uruguai nas semifinais da Copa do Mundo pela primeira vez desde 1970.

O Uruguai, um pequeno país quase do tamanho do vizinho estado brasileiro do Rio Grande do Sul, mas com um terço da população deste. São apenas 3,5 milhões de pessoas, e talvez um outro tanto destas espalhado mundo afora, pois a economia estagnada e a falta de perspectivas de trabalho levam os uruguaios a migrar para a Argentina, para a Austrália, para o Brasil, para os EUA, para a Europa,… Uma nação orgulhosa de suas tradições, porém constrangida por raramente poder se postar ao lado dos “grandes do mundo”, uma vez que suas glórias esportivas e sua pujança econômica ficaram num passado que se torna cada vez mais distante. Pois bem, o Uruguai está nas semi-finais da Copa do Mundo, enquanto gigantes cujas seleções são formadas por alguns dos mais badalados jogadores do planeta, como França, Itália e Brasil, estão de fora. Quando acontecem coisas assim, ainda por cima numa partida que lembraremos por décadas a fio, percebemos que estamos lidando com algo que transcende a esfera puramente esportiva. Em dias como este compreendo melhor os motivos que me levaram a ter uma paixão tão grande por este negócio, e lamento, bastante, por aqueles que, em sua ânsia de lutar contra os “ópios” que supostamente cegariam o “povo”, não conseguem enxergar a beleza e a poesia de momentos como este.

O esporte, em si, dá lições todos os dias. O futebol, paixão mundial, faz um pouco mais do que isso. Quem conhece o Uruguai, mesmo quem já viveu lá, mal consegue imaginar a alegria que povo daquele pequeno país localizado no sul da América do Sul está vivendo neste momeno.

Ser testestemunha de uma partida como esta não tem preço. O jogo, sem dúvida, deixa claro que, na vida, quando se quer um objetivo, é preciso acreditar até o fim na possibilidade de obter sucesso, por mais pequena e difícil que esta seja. A lição é nunca desistir, nem quando o placar é um a um e se tem um pênalti contra aos 18 minutos do segundo tempo da prorrogação…

Isso é a Copa do Mundo, meus amigos. Nada mais importa.

Abraços,
Marcio Santos

– com a colaboração de Daniel Machado

A foto acima foi retirada do site do jornal argentino La Nación

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