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Palmas no “tempo da política”: sugestões para observação e análise

Entre fins dos anos 80 e meados dos anos 90 do século passado começaram a ganhar destaque nas ciências sociais brasileiras os estudos antropológicos sobre a política, sendo que uma das principais características comuns entre estes trabalhos é a valorização de aspectos normalmente deixados em segundo plano pelos cientistas políticos. A ideia é demonstrar como há diferentes formas através das quais a política é vivenciada e percebida pelas pessoas, voltando o olhar mais para aspectos subjetivos e para as micro relações que permeiam o cotidiano do que para análises institucionais e dados estatísticos supostamente objetivos, permeados por uma certa concepção acerca da racionalidade dos agentes sociais.

Neste contexto, a partir de estudos etnográficos realizados em municípios do interior do Sul e do Nordeste, Moacir Palmeira cunhou o conceito de tempo da política. Trata-se, na verdade, de uma expressão “nativa” que, tendo uma considerável capacidade de explicar e definir certas peculiaridades das relações sociais nestes locais, pôde ser operacionalizada como um conceito teórico. O tempo da política é, basicamente, o momento ou período em que “as facções são identificadas e que, por assim dizer, existem plenamente, em conflito aberto” (PALMEIRA, Moacir e GOLDMAN, Marcio (orgs.). Antropologia, voto e representação política. Rio de Janeiro, Contra Capa, 1996: p.53). Assim, a opção por um candidato não é necessariamente a opção por um representante, mas sim a expressão da identificação com uma determinada facção. Temos, desta forma, uma escolha que não é apenas individual, indo até mesmo além das redes de relações sociais mais básicas nas quais o sujeito está envolvido. Em outro sentido, o tempo da política é também uma época de acirramento de ânimos, um tempo extraordinário que modifica as relações sociais cotidianas e chega a acirrar conflitos que aparentavam ter sido resolvidos.

Há quase oito anos morando em Palmas-TO, acredito que nunca percebi com tanta evidência as transformações trazidas pelo tempo da política quanto nas eleições municipais deste ano. Talvez em Porto Alegre-RS eu não percebesse isso com tanta clareza por não ter tanta proximidade com pessoas diretamente envolvidas com campanhas, mas acredito que o tamanho e a idade da cidade e a centralidade do poder público (maior empregador de pessoas e maior cliente das empresas) na vida social são fatores que não podem ser desconsiderados. Outro elemento que colabora muito com a explicitação dessa divisão faccional e do acirramento dos ânimos é, sem dúvida, o crescimento vertiginoso da utilização das redes sociais online (Twitter, Facebook etc.).

É evidente que se trata de um microcosmo que não pode ser tomado como representativo da população palmense como um todo, porém creio que uma análise do comportamento destas “elites formadoras de opinião” pode ser bem interessante para refletirmos e compreendermos os significados da política na vida daqueles que moram nesse pedaço do Brasil. Há amigos que pareciam próximos e chegam ao ponto de romperem relações por estarem agora em facções opostas, ou mesmo por não se dedicarem com o afinco visto como necessário ao “seu” candidato (e, por consequência, ao grupo que ele representa). Há aqueles que evitam se relacionar e se encontrar nesse período justamente para evitar que o tempo da política deixe feridas que não podem ser recuperadas. Espaços públicos e privados são interditados ou passam a ter outros significados para integrantes de uma determinada facção. Ocorre uma frequência a espaços e lugares da cidade até então desconhecidos por esta “elite” (o que vale tanto para os candidatos quanto para seus “militantes”). Vestimentas de determinadas cores ou padrões passam a sinalizar a adesão a um determinado grupo. Há os malabarismos argumentativos para justificar mudanças de posições e de parcerias. O uso de determinadas palavras ou expressões passa a ser regulado, considerando os vínculos faccionais de quem está falando. O dinheiro é visto com ambiguidade: nas mãos dos “nossos” é um recurso necessário para mover a campanha, nas mãos “deles” quase sempre é algo sujo e gerador de suspeitas de atos ilícitos, como a compra de votos. Existe uma forte tensão entre a profissionalização da militância paga e o valorizado idealismo dos apoiadores “espontâneos”, sempre permeada pelos compromissos (morais e financeiros) assumidos, cujo cumprimento depende do êxito eleitoral. Há, ainda, uma incompreensão da situação daqueles que não se aliam a uma determinada facção, situação que pode acarretar ataques e novos conflitos.

Enfim, são muitos os caminhos e enfoques que podem ser dados por quem se dedicar ao esforço intelectual de analisar o contexto social da capital tocantinense neste tempo da política. Seria possível, certamente, arriscar muitas hipóteses interpretativas para estes fenômenos sociais. Por ora, entretanto, podemos nos ater a uma conclusão baseada na observação do modus operandi do jogo político no Brasil: por mais tensões, conflitos e interdições que esta “época extraordinária” imponha aos atores sociais que nela se envolvem, é certo que a lógica de buscar a “governabilidade” fará com que, após o pleito, os eleitos procurem seus antigos adversários e rearranjem as facções que pareciam impossíveis de se conciliar. O que ocorrerá com os militantes, remunerados ou apaixonados, somente observações posteriores nos permitirão saber.

Abraços,

Marcio Santos

P.S.: Esta são minhas reflexões, que não necessariamente se coadunam com as opiniões dos demais signatários desse blog.

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Por que votarei em Dilma Rousseff

Eis que, neste contexto de ânimos acirrados que vem caracterizando a atual disputa pela cadeira de presidente do Brasil, resolvi que é hora de declarar publicamente meu voto. Aqueles que me conhecem minimamente já sabem detalhes sobre muitas de minhas opiniões e posicionamentos, porém creio que, ainda assim, é interessante deixar bem claros os porquês de minhas escolhas. Tomo esta atitude sem o conhecimento dos meus companheiros de blog, os quais, evidentemente, terão todo o direito de expor e justificar suas opiniões, neste mesmo espaço.

Sem mais delongas, já aviso que votarei na candidata Dilma Rousseff, do PT. Antes de apresentar as motivações da minha opção, vou refutar alguns dos argumentos utilizados para considerar “absurda” esta escolha.

Muitos dizem que não votarão em Dilma porque estariam, assim, garantindo a expulsão de uma certa “corja” que teria dominado a administração pública brasileira. Este fato, que certamente tem elementos de verdade, não pode obscurecer a constatação de que a “era FHC” em nada ficou devendo à “era Lula”, em termos de “escândalos”. Para quem não lembra de coisinhas como SIVAM, Sudam, suspeitas de propina nos processos de privatização e fortes acusações de compras de votos para aprovação da emenda da reeleição, sugiro a leitura deste “apanhado”, para refrescar a memória: “45 escândalos que marcaram o governo FHC”. Me parece bastante difícil quantificar os desmandos e as falcatruas possíveis e/ou confirmadas, qualificando, peremptoriamente, um dos grupos políticos como mais “ético” ou “íntegro” do que o outro. Trata-se, em suma, de um tenebroso problema estrutural de certas instituições brasileiras, que demanda, no mínimo, uma profunda reforma política para que seja efetivamente solucionado. Enquanto isso não acontece, a única e legítima alternativa para quem pretende ter um voto realmente “moralista” e “moralizador” seria a opção pelo branco ou pelo nulo… Em outro sentido, pode-se criticar Lula o quanto for possível e necessário, mas é inegável que instituições como a Polícia Federal e, num certo sentido, o próprio Ministério Público Federal, tiveram muito mais autonomia para atuar do que no governo anterior. Sobre a atuação da PF, cabe conferir este levantamento, feito pelo insuspeito jornal Estado de S. Paulo, com dados de 2003 a 2008. Interessante destacar, também, que a cobertura midiática, sempre fundamental numa sociedade democrática, tende claramente a um certo favorecimento dos tucanos, talvez em virtude de alguns contratos que seus governos fazem beneficiando grandes revistas, jornais e editoras (ver esta análise do NaMaria News). Trocando em miúdos: quando o assunto é a tal “moralidade pública”, a discussão é tremendamente hipócrita, pois estamos falando de um debate em que o roto fala mal do esfarrapado…

Outro ponto justamente destacado nas críticas direcionadas à candidata governista diz respeito às alianças com figuras como Sarney, Jader Barbalho e Renan Calheiros, verdadeiros coronéis que representam o que há de mais atrasado na política nacional. Pois bem, amigos, isto é terrível mesmo, mas lhes digo, sem pestanejar: se Serra ganhar FATALMENTE se aliará com estes mesmos sujeitos, assim como FHC o fez durante seu governo. Isto se deve pura e simplesmente às características do atual regime político-institucional brasileiro, que os sociólogos e cientistas políticos chamam “presidencialismo de coalizão” – a leitura é mais do que obrigatória para quem quer entender melhor a urgência de uma verdadeira reforma política neste país. Evidente que eu gostaria de ter um governo que prescindisse destes sujeitos, mas, além de ter a certeza que, no dia seguinte a uma eventual vitória nas urnas, Serra teria que, no mínimo, começar a negociar com tais próceres do PMDB, não creio que elementos como Roberto Jefferson, Joaquim Roriz, José Roberto Arruda, Yeda Crusius, Orestes Quércia, Jorge Bornhausen, César Maia e Kátia Abreu sejam exemplos de progressismo e pureza ideológica.

Trocando em miúdos, de novo: postura ética e alianças bizarras podem até ser motivos para te fazer não votar em nenhum dos candidatos, mas daí a achar que um é mais “puro” do que o outro, neste sentido, a coisa fica bem mais complicada…

Ainda pensando em possíveis questionamentos à minha escolha, sei que alguns dirão que a eleição atual não é entre Lula e FHC, mas sim entre Dilma e Serra. Isto é mais do que óbvio, porém acredito que tão evidente quanto esta constatação seja o fato de que, sobretudo em eleições presidenciais, não estamos escolhendo pura e simplesmente um indivíduo, o governante, mas sim optando entre projetos de país. Assim, por mais que PT e PSDB tenham apresentado algumas semelhanças na condução de certas questões, considero que há uma série de pontos que os diferenciam, e são justamente estes que me fazem considerar a continuidade do atual projeto a melhor opção para o Brasil.

Ressalto, desde já, que os aspectos que destacarei aqui relacionam-se intimamente com meu trabalho, minha trajetória de vida e minhas convicções pessoais. Não considero, porém, que isto seja um ponto que sequer possa ser cogitado para desqualificar minha análise…

Passei longos anos da minha vida dentro de uma universidade federal (a UFRGS), e lembro detalhadamente como era a realidade do ensino superior público ao longo do governo FHC. Entre 1998 e 2002, período em que cursei a graduação em Ciências Sociais, os salários dos professores permaneceram praticamente congelados e, muito pior do que isso, havia uma notória defasagem na quantidade de docentes. Não era incomum que um professor se aposentasse e nem sequer fosse autorizada a realização de concurso público para repor a sua vaga. Professores substitutos, ainda em processo de formação e tremendamente mal remunerados, assumiam disciplinas fundamentais. A infra-estrutura dos prédios era precária, sendo que a palavra “sucateamento” com certeza não era um eufemismo para definir a situação. Em 2003, quando comecei a cursar o Mestrado, o presidente Lula mal havia assumido, mas logo foi possível perceber que algumas coisas estavam mudando: as bolsas de pesquisa e graduação, estagnadas há muito tempo, foram reajustadas, por exemplo. As transformações não foram todas imediatas, é claro, mas, posteriormente, muita coisa aconteceu: criação de universidades, ampliação de campi, concursos para docentes e servidores, recuperação dos salários… Realmente, para quem viveu aquela época, não há como fazer uma comparação que seja favorável a FHC. Não sou apenas eu quem está dizendo isto: diversos reitores de universidades federais, os quais seria lamentável rotular como “rebanho cego petista”, destacaram, em manifesto recentemente divulgado, os investimentos do governo Lula em educação. Esta leitura é especialmente importante para os mais jovens, na faixa dos 20 anos, que estão nas universidades e não têm a mínima ideia do que acontecia durante a “era FHC”. Se quiserem um outro relato sobre o assunto, não deixem de ler o que diz a Semiramis.

Atualmente, trabalho num órgão público federal, em cargo da minha área de formação, a antropologia. Por conta disso, tenho contato direto com povos indígenas e comunidades tradicionais. Trata-se, portanto, de populações cujos dilemas, demandas e necessidades acompanho diariamente. No caso dos indígenas, mesmo que a “era Lula” tenha trazido menos avanços do que se esperava, há que se destacar alguns pontos: a criação da Comissão Nacional de Política Indigenista – CNPI, importante instância de participação das comunidades na formulação e monitoramento das políticas públicas a elas direcionadas, a realização de concursos públicos para oxigenar o limitado quadro de servidores da Funai, a reestruturação deste órgão indigenista (polêmica, porém necessária) e a demarcação, em área contínua, da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol, ato que, por si só, possui considerável simbolismo.

A preocupação governamental em ampliar o escopo das comunidades tradicionais beneficiadas pelas políticas públicas expressou-se na edição do Decreto nº 6040/2007, que instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (PNPCT) (mais detalhes aqui). No que se refere ao reconhecimento e titulação dos territórios das comunidades quilombolas, foi editado o Decreto nº 4887/2003, bastante avançado em relação à regulamentação do governo anterior, sobretudo por incorporar parte do conteúdo da Convenção 169 da OIT, assinada e ratificada pelo Brasil. Ocorre, basicamente, que agora a legislação incorpora, ao menos em parte, a discussão antropológica sobre o assunto: quando falamos de “comunidades quilombolas”, não estamos nos referindo apenas ao passado, sempre presente na memória coletiva compartilhada por estes grupos, geralmente ligada a algum tipo de ancestralidade negra. Estamos, também, nos referindo a um presente, onde estes sujeitos atualizam modos de viver específicos, capazes de garantir sua reprodução física e social. Daí a importância de valorizarmos a auto-atribuição de uma identidade étnica.

Contudo, apesar de não gostar de fazer escolhas com base em avaliações negativistas, assumo que, neste aspecto, um dos grandes motivos para votar em Dilma é a perspectiva do que poderia ocorrer caso José Serra vencesse as eleições. Muito significativa, neste sentido, é a postura do DEM, um de seus maiores aliados, partido que abarca as lideranças mais reacionárias da chamada “bancada ruralista”, dentre as quais está uma certa senadora tocantinense… Pois bem, a citada agremiação simplesmente ingressou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) questionando o supracitado Decreto 4887/2003. Ocorre que os “demos” consideram que esta avançada legislação seria um “risco para a propriedade privada”. Percebamos, aqui, mais uma vez, a tentativa de impor os interesses dos grandes proprietários sobre comunidades que vivem há décadas em determinados territórios, sem que jamais tenham tido a possibilidade de obter a titulação dos mesmos, em virtude dos conhecidíssimos problemas fundiários que grassam nos rincões mais profundos de nosso país. Para saber mais detalhes sobre esta ADI e os inúmeros argumentos existentes para refutá-la, sugiro a leitura deste artigo e desta entrevista .

Outra questão que possui bastante relevância, para mim, é a preservação do meio-ambiente. Se é indiscutível que muito mais poderia ter sido feito, também o é a constatação de que houve muitos avanços, também nesta área. A este respeito, é paradigmática a análise de Idelber Avelar: “O ambientalismo e o segundo turno das eleições”.  Destaco, aqui, a observação de que “Não é segredo para ninguém que houve e há tensões no interior do governo, o que é perfeitamente natural num governo democrático de coalizão. Da mesma forma como há tensões entre o Ministério da Agricultura, mais alinhado com os interesses do agronegócio, e o Ministério do Desenvolvimento Agrário, mais pautado pelos interesses dos trabalhadores rurais, também há tensões entre as áreas do governo responsáveis pela implementação de projetos, como a Casa Civil, e o Ministério do Meio Ambiente”. Se esta convivência entre interesses que se antagonizam é complexa e traz uma série de dificuldades, muitas das quais percebo em meu cotidiano de trabalho, quando vejo os territórios das populações tradicionais serem impactados por grandes empreendimentos, não há elementos para crer que os interesses do lado “fraco” estariam representados no governo Serra. Como já indiquei anteriormente, a cúpula do agronegócio brasileiro está ao lado do tucano, e os governos deste partido historicamente dão pouco ou nenhum espaço para os movimentos sociais e populares. Além disso, basta uma análise simples para verificar como as equipes técnicas de Incra, Ibama e ICMBio, órgãos relegados a um segundo plano durante a “era FHC” foram bastante reforçadas durante o governo Lula. Enquanto isso, senadores do PSDB e do DEM estavam entre aqueles que se posicionaram claramente contra operações como a Arco de Fogo, destinada a combater a exploração ilegal de madeira. Para quem tem dúvidas, a informação está no próprio site do partido: “Senadores exigem suspensão da Operação Arco de Fogo”. Seria este um dos motivos pelos quais Serra venceu o primeiro turno das eleições nos municípios campeões de desmatamento, justamente aqueles que compõem o tal “Arco de Fogo”?

Muito mais poderia ser dito em termos de comparações entre os governos de Lula e FHC, se formos adentrar em questões como crescimento econômico, geração de empregos, redução das desigualdades sociais, valorização e profissionalização do serviço público etc. Uma bela síntese (com referências, para quem prestar atenção) está nestes infográficos feitos pelo Ilustre Bob:

 

Entendo que minha opção pela candidata Dilma já está mais do que justificada, considerando o que foi exposto. Entretanto, a ofensiva conservadora que tomou conta do debate político neste segundo turno, colocando no centro da arena pública, com viés moralista e inquisidor, questões que deveriam se restringir à esfera das convicções e escolhas pessoais, como aborto e casamento ou união civil entre pessoas do mesmo sexo, fez com que desmoronasse grande parte do respeito que eu possuía pelo candidato José Serra e por sua trajetória. Se é lamentável que Dilma e o PT, encurralados, estejam fazendo concessões a alguns dos setores mais conservadores de nossa sociedade – muitos dos quais sonham em transformar o Brasil numa espécie de teocracia -, é inegável que esta guinada na campanha se deve à atuação dos apoiadores do candidato tucano, que fizeram acusações de todos os tipos na tentativa de garantir a realização desta segunda rodada das eleições presidenciais. Ressalto que não sou apenas eu quem diz isso: Fernando Barros e Silva, colunista da Folha de São Paulo, afirma claramente que “foi Serra quem arrastou esse cortejo do atraso para o centro da disputa política”. Se haveria alguma esperança de que Serra poderia romper com alguns dos velhos caciques que se tornaram “neo-lulistas” ao longo dos últimos anos, para mim esta se desfaz quando, no desespero para alcançar a vitória eleitoral, o PSDB se aproxima perigosamente de sujeitos ainda mais conservadores – até ex-integrantes da JUVENTUDE NAZISTA entraram na jogada!

Neste contexto, desrespeitando a própria biografia, Serra teria grandes dificuldades de construir seu governo sem dar espaço e garantias para estes sujeitos, que lhe deram sobrevida numa eleição que estava praticamente perdida.

Assim, por mais que eu entenda que nosso país ainda tem um longo caminho a percorrer em busca da efetiva justiça social, considero que muito foi feito nestes últimos anos, jamais me alinhando ao lado daqueles que acham tudo por aqui uma grande porcaria. Além disso, não tomar posição, neste momento, seria um desrespeito à minha própria trajetória, pois jamais devo esquecer que, mesmo tendo tantas ilusões desfeitas ao longo do caminho, um dia me inscrevi no vestibular para Ciências Sociais porque achava que, de alguma forma, poderia começar a transformar este país tão cheio de injustiças. Por tudo isso, e inclusive por por saber que o caminho para o Brasil dos meus sonhos começa por impedir o retorno de certos pesadelos, no próximo dia 31 de outubro votarei em Dilma Roussef, número 13.

Abraços,
Marcio Santos

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O Censo e o “bom senso”

Hoje, por ossos do ofício, participei de uma reunião com o pessoal do IBGE, sobre o Censo 2010. Tratava-se, na verdade, da formação de uma Comissão Censitária Estadual, para a qual foram convidados representantes de universidades e diversos órgãos públicos, estaduais e federais, atuantes no Tocantins. Pensando bem mesmo, o que me chamou a atenção foi justamente o fato desta ser a primeira vez em que se pretende formar comissões destes moldes, pelo Brasil afora. Consta que antes existiam apenas umas comissões municipais, que eram um tanto quando desconexas entre si, justamente por falta de alguma instância que lhes desse orientação e apoio – este é o papel que pretende-se seja desempenhado pela tal Comissão Estadual. Achei isso interessante porque um órgão como o IBGE, responsável pela coleta de dados capazes de caracterizar a população em inúmeros aspectos e, consequentemente, subsidiar a formulação de políticas públicas, cumpre uma função primordial na estrutura do Estado. Imediatamente lembrei que num passado distante li algo que o Bourdieu escreveu sobre o assunto, e graças ao Google, localizei o trecho em questão, que está em Razões Práticas:

“O Estado concentra a informação, que analisa e redistribui. Realiza, sobretudo, uma unificação teórica. Situando-se do ponto de vista do Todo, da sociedade, ele é o responsável por todas as operações de totalização, especialmente pelo recenseamento e pela estatística ou pela contabilidade nacional, pela objetivação, por meio da cartografia, representação unitária, do alto, do espaço, ou simplesmente por meio da escrita, instrumento de acumulação do conhecimento (por exemplo, com os arquivos) e de codificação como unificação cognitiva que implica a centralização e a monopolização em proveito dos amanuenses ou dos letrados.” (p. 105)

(Segundo a Wikipedia, amanuense “é todo aquele que copia textos ou documentos à mão”, sendo que, “vulgarmente, considera-se amanuense o escriturário duma repartição pública ou estatal, que manualmente regista documentos ou os copia”.)

Assim, acho interessante que tantas instâncias do poder público tenham, segundo os relatos dos presentes na reunião, historicamente ficado numa posição de relativo desinteresse em relação aos recenseamentos. Afinal de contas, concordando com a leitura bourdiana sobre o assunto, para o bem ou para o mal o Estado precisa dessas informações. Mais do que isso, me chama a atenção que, ao invés de concentrar esforços num Censo que fosse capaz de dar conta de uma gama mais ampla de dimensões da realidade social, órgãos responsáveis por saúde e educação acabam por fazer seus próprios levantamentos. Talvez eu esteja desinformado, inclusive porque certamente há meandros da política interna e externa destas instituições que eu desconheço. Entretanto, me parece que este é mais um exemplo da falta de articulação entre as várias instâncias que compõem a burocracia estatal neste país (aqui me refiro à “burocracia” num sentido weberiano, que fique bem claro!)

Seja como for, tenho que registrar que a vontade de engajar-se no processo por parte dos representantes do poder legislativo estadual e dos municípios foi notável, e deve-se, basicamente a um simples fator: a distribuição do Fundo de Participação dos Municípios é proporcional à população de cada localidade. Acontece que na última contagem da população, em 2007, várias cidades, incluindo Palmas, a capital, ficaram com bem menos habitantes do seus administradores acreditavam ter. Com isso, os repasses diminuíram, e muitos atribuem a culpa disso ao IBGE, que, por sua vez, afirma não ter recebido o apoio necessário para a aplicação dos questionários, principalmente nos lugarejos mais isolados das zonas rurais. Agora, visando 2010, as lideranças políticas estão dispostas a garantir que sejam recenseados desde o agricultor que vive num rincão onde só é possível chegar a cavalo até o trabalhador urbano que passa 16 horas do dia longe de casa. O importante é achar estas pessoas, onde quer que elas estejam!

Enfim, acho que este é mais um processo que pode render uma experiência bacana, de vez em quando até mesmo podendo dar uns palpites!

Abraços,
Marcio Santos

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A avenida da discórdia

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Uma das coisas coisas que me chamou a atenção desde os primeiros meses aqui no Tocantins tem relação direta com o fato deste ser o estado mais “jovem” da federação: a dificuldade das pessoas em terem clareza para definir o que seria “tipicamente tocantinense”, o que constituiria a identidade regional deste pedaço do Brasil. Lembremos que o território que hoje constitui o Tocantins fazia parte de Goiás até pouco mais de duas décadas atrás, e que boa parte da população têm vínculos bem fortes com os estados do entorno, tais como o Pará e o Maranhão. Neste contexto, é difícil que qualquer coisa que seja apresentada como “típica”, seja esta algum tipo de alimento, uma festa ou uma dança, não seja alvo de disputas com os “vizinhos”, que sempre reivindicarão possuir tais saberes ou exercer tais práticas há mais tempo. Se consideramos a situação peculiar da capital, Palmas, fundada em 1989 e habitada por gente de todos os cantos do país, fica ainda mais evidente o quanto é difícil se chegar a quaisquer consensos acerca da “identidade tocantinense”.

É importante esclarecer, neste momento, que, como cientista social, me esforço para não alimentar ilusões quanto ao caráter “imemorial” e “autêntico” das tradições que contribuem para a construção das identidades de povos e lugares. Lembro sempre do historiador britânico Eric Hobsbawm, que, num famoso livro que organizou juntamente com o colega Terence Ranger mostrou como mesmo aquilo que achamos ser mais “original” pode ter sido manipulado conforme os interesses das elites políticas e intelectuais de um determinado momento histórico. Desta forma, Hobsbawm demonstra que tradições tidas como antigas muitas vezes são, na verdade, bastante recentes ou até mesmo “inventadas”. Tais “tradições inventadas” se consolidam tanto através de referências a situações anteriores como estabelecendo seu próprio passado, a partir de uma repetição quase obrigatória. Nas suas palavras, “a invenção das tradições é essencialmente um processo de formalização e ritualização, caracterizado por referir-se ao passado, mesmo que apenas pela imposição da repetição” (p. 167).

São inúmeros os casos que poderiam ser citados para ilustrar estas reflexões, mas por ora basta lembrar que, no citado livro, o historiador britânico mostra como as ditas “tradições escocesas” foram forjadas por um grupo de irlandeses que migraram para as Highlands e assim agiram para fundar uma memória inexistente e uma “tradição nacional”. No caso brasileiro, podemos destacar o caso do Movimento Tradicionalista Gaúcho, cujo surgimento remonta aos anos 40 do século passado, quando um grupo formado majoritariamente por jovens estudantes vindos do interior, oriundos de famílias de grandes proprietários rurais, se muda para Porto Alegre e passa a se reunir para cultuar um “passado campeiro” idealizado. Em outros termos, tratava-se da celebração de um modo de vida que jamais existiu exatamente daquela forma, mas que foi construído de uma forma tão ideologicamente poderosa que veio a ser difundido pelo Brasil e pelo mundo com o rótulo de “tradições gaúchas” (para mais detalhes, vejam este livro do antropólogo Ruben Oliven).

Pois bem, neste exato momento, aqui em Palmas, a capital do Tocantins, estamos vivenciando um debate para lá de interessante, diretamente relacionado com esta problemática da construção de tradições e identidades regionais. No último dia 07 de abril, a Prefeitura protocolou na Câmara Municipal um projeto de lei propondo a alteração do nome da maior avenida da cidade, que passaria a se chamar Governador Siqueira Campos, ao invés de Theotônio Segurado. O detalhe é que este último foi um jurista português com atuação em movimentos pela emancipação do norte goiano que remontam ao século XIX, enquanto o primeiro foi governador do estado por três mandatos, incluindo-se aí o período imediatamente seguinte à criação do Tocantins, após a promulgação da Constituição de 1988 (veja biografias resumidas de ambos aqui). Ou seja, de um lado um personagem histórico enquadrado em muitas narrativas oficiais como o “iniciador” do movimento que culminou com a separação do território goiano, de outro uma liderança política ainda atuante, mas também possuidora de importância neste processo histórico. Como Siqueira Campos ainda hoje é uma das principais figuras da oposição ao atual governador Marcelo Miranda (antigo aliado seu, mas isto é história para outro post), tal proposta vem despertando reações das mais diversas, com diferentes níveis de exaltação, indo desde a proposição de uma “Moção de Aplausos” por parte de um deputado que foi adversário do prefeito nas últimas eleições municipais até afirmações um professor para quem tal mudança faria a cidade “perder sua identidade”.

Sem negar as questões propriamente políticas envolvidas no projeto, que no mínimo acaba servindo para direcionar os holofotes da mídia para o prefeito de Palmas, gostaria de chamar a atenção para uma questão. Na minha opinião, uma proposição destas só é possível numa cidade e num estado nos quais os processos de construção de uma identidade regional se encontram num momento tão “incipiente” como este que vivemos aqui no Tocantins. Mal comparando, não acho que o Fogaça ou qualquer vereador de Porto Alegre sequer cogitem pensar em mudar o nome da avenida Bento Gonçalves para “avenida Leonel Brizola”, por exemplo. Assim, posso dizer que estou vendo com meus próprios olhos uma disputa que não é apenas política, mas também simbólica, um momento no qual Palmas e o Tocantins discutem acirradamente sobre seus ” pais fundadores”. Por um lado, me parece que o próprio debate atual será um momento crucial nesta trajetória de construção da “identidade tocantinense”. Por outro, sem querer me arriscar num exercício de futurologia mas já o fazendo, me parece que esta alteração, se realizada, poderia acabar “atrasando” a consolidação de um imaginário sobre os “heróis” do estado, uma vez que, mesmo não sendo tão conhecido pela população em geral, a figura de Theotônio Segurado não desperta as paixões partidárias e sectárias nas quais o nome de Siqueira Campos está sempre presente.

Ainda há “soluções alternativas” a serem propostas, como aquela apresentada por um vereador, sugerindo que a segunda maior avenida da cidade, chamada JK, seja a renomeada. Segundo ele, o mítico presidente não teria maior importância na história da emancipação do antigo norte goiano, o que, obviamente, já provocou reações, positivas e negativas

Por enquanto, o certo é que ainda há muita água por rolar nesse debate, e confesso que acho um tanto divertido poder acompanhá-lo de uma posição relativamente distanciada!

Abraços,
Marcio Santos

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Arquivado em Politica, Reflexões, Tocantins

Busatto, o descolado

Vejam só as “gratas” surpresas que a vida nos reserva. Chegando em Porto Alegre na noite desta terça-feira, logo ao sair do aeroporto, numa das primeiras sinaleiras (semáforos, para os não-gaúchos), me deparo com um Astra onde está ninguém menos que CÉSAR BUSATTO. Sim, esta peculiar figura da política gaúcha, ex-secretário da Fazenda no Governo Britto, ex-secretário de Coordenação Política da Prefeitura de POA e, mais recentemente, Chefe da Casa Civil do (Des)Governo Yeda.

Até aí, é claro, nada demais. O detalhe é que na parte de trás do carro do sujeito havia dois adesivos pra lá de chamativos: um da CAMPANHA do OBAMA e outro onde se podia ler UNITED NATIONS, texto devidamente acompanhado pela conhecidíssima logomarca. Não sei se estou morando há muito tempo fora do RS e não entendo mais como funcionam certas coisas por aqui, mas, por favor, alguém me diga que isso não é o cúmulo do PROVINCIANISMO disfarçado de COSMOPOLITISMO? Em outros termos, que tipo de mensagem ele pode querer passar com isso além de “oh, vejam como sou bacana e descolado”?

Sei lá, talvez seja apenas minha leitura eventualmente tendenciosa e distorcida, mas acho que uma coisa é de vez em quando usar camisetas com alusões deste gênero, outra andar desfilando diariamente pelas ruas da cidade com tais mensagens visuais assim explícitas.

Enfim, no fundo talvez não seja nada mais do que parte de uma estratégia para “limpar” a imagem…

Abraços,
Marcio Santos

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Mais sacanagem no Senado!

Todos os dias os nomes aparecem.

Todos os dias uma nova sacanagem.

O Brasil é um país absurdo. Muita impunidade As coisas aparecem todos os dias e os nomes estão aí. A corrupção faz parte do sistema. O filme “Tropa de Elite”, de José Padilha, sucesso de público e crítica confirma o que estou dizendo.

Reportagem da Folha de S. Paulo de hoje mostra que o Senado pagou pelo menos R$ 6,2 milhões em horas extras para funcionários que teriam prestado serviço em janeiro – mês em que a Casa estava em recesso e quando não houve sessões, reuniões e nenhuma atividade parlamentar.

Desta vez, a explicação oficial é um completo absurdo. Coisa que, se a gente não levasse em conta que é com o nosso dinheiro, poderíamos rir por quase toda a vida.

O Senado justificou que 3.883 servidores trabalharam além do expediente normal em janeiro para preparar uma única sessão, que ocorreu no dia 2 de fevereiro.

O Senado tem 6.570 servidores entre comissionados e efetivos.

Desta forma, o Senado sustenta que foram necessários os trabalhos, extras, de 3.883 servidores para preparar uma sessão.

Os responsáveis
O ex-secretário da Mesa Diretora senador Efraim Morais (DEM-PB) foi quem assinou a autorização do pagamento. Agacial Maia, até então diretor-geral do Senado, emitiu os documentos para confirmarem os pagamentos.

Abraços,
Daniel Machado

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Arquivado em Geral, Mídia, Politica

Jarbas tem razão!

No seu discurso na quarta-feira ( esse do post aí abaixo), o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) disse não precisar citar nomes, pois estes aparecem todos os dias. A afirmação é uma verdade completa.

No dia seguinte, o Senado assistiu dois atos que comprovam o quão ruim é a política do Brasil. Comprovam em que situação está este país e o porque das pessoas sequer se indignar mais. Agaciel Maia, ex-diretor-geral do Senado, recebeu um ato de desagravo dos funcionários da Casa.

Agaciel, que teve seu nome envolvido no escândalo da gráfica do Senado em 1993, agora é  acusado de sonegação e outras coisas. Foi descoberto que ele “escondeu” uma casa de R$ 5 milhões. Uma história muito complicada, a casa estava no nome do irmão, um deputado federal, que sequer declarou o bem no seu registro de candidatura.

Bom, mesmo com esse histórico, o ato de respaldo a Agaciel foi grande. Muitos funcionários mostraram o apoio.

Depois, o senador Fernando Collor (PTB-AL)  (esse mesmo que você está pensando), com o apoio do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), se elegeu presidente da Comissão de Infraestrutura, umas das mais importantes do Senado. Collor é um ex-presidente da República que sofreu impeachment e Renan é aquele que quase perdeu o mandato por pagar despesas particulares com ajuda de lobista beneficiado por obras públicas negociadas por ele. Bom, os nomes estão aí. Eles vêm todos os dias.

Abraços,
Daniel Machado

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