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Se é Bayern, é excelente!

Pego, agora, uma licença histórica para parafrasear parte do conhecido slogan da empresa farmacêutica Bayer (“Se É Bayer, É Bom”), afirmando: “Se É Bayern, É Excelente”. O Bayern de Munique, que está comemorando, após a vitória de 3 x 1 contra o Herta Berlim fora de casa, o seu 22º título alemão, tem sua sede, como o próprio nome diz, em Munique, na região da Bavária, na Alemanha. Nos próximos dias, o time ainda decide os títulos da Copa da Alemanha, 15 de maio, contra o Werder Bremen e, principalmente, da Liga dos Campeões da Europa, contra a Inter de Milão, no dia 22 de maio.

Capitão Van Bommel ergue o troféu, celebrando o 22º título alemão do Bayern

Muitas vezes sonegado pela grande mídia brasileira, que prefere times de outros países europeus como Itália, Inglaterra e Espanha, o Bayern de Munique é um dos maiores clubes do mundo. A agremiação tem quatro títulos de campeão europeu e 15 da Copa da Alemanha, além dos campeonatos alemães já citados.

Pois é este clube pouco conhecido da maioria dos torcedores brasileiros a grande paixão do empresário Gustavo Vieira Formiga, 22 anos, que mora e trabalha em Taquaralto – região sul de Palmas. Na última semana, eu e o colega Márcio Santos, dois dos três signatários do blog, viajamos os quase 18 quilômetros necessários para visitá-lo na sua loja, que tem o sugestivo e, por quê não, espetacular nome de Bayern Ferragens. Como se não bastasse, a fachada do estabelecimento, que além do trabalho de Gustavo e seus familiares conta com dois funcionários, é decorada com as cores vermelha e branca e pequenos detalhes em azul, exatamente as cores do Bayern. Para completar, o logotipo do estabelecimento é, simplesmente, o símbolo do Bayern, apenas sem o FC de Futebol Clube e a expressão “Ferragens” no lugar de München (Munique em alemão).

Fachada da Bayern Ferragens

Gustavo é natural de Praia Grande, cidade que fica próxima a Santos, no Estado de São Paulo. Ele conta que começou a gostar do Bayern em 2004, ano em que o clube nem fez grande temporada. A partir disso, a paixão pelos bávaros foi só crescendo. Nas suas costas, exibe uma grande tatuagem do símbolo do clube.

Gustavo exibe o símbolo do Bayern, tatuado em suas costas

Ao falar sobre a história do time, Gustavo apresenta grande conhecimento, comentando detalhes das conquistas e dos fracassos. Sobre o elenco atual, então, ele parece ter todas as informações.

Ele elogia o polêmico Louis van Gaal pelo trabalho, afinal o time montado pelo treinador, além de campeão alemão, está na final da Copa da Alemanha e na final da Liga dos Campeões da Europa, considerada a mais importante competição de clubes do planeta.

Em relação a reclamações, considera exagerados os mais de € 30 milhões pagos pela contratação do atacante Mario Gomez, que não faz boa temporada, além de não concordar com a dispensa de Lúcio pelo treinador holandês. De acordo com Gustavo, que nunca foi à Alemanha, a defesa bávara não tem consistência permanente, oscilando entre boas partidas e péssimas atuações.

No balcão da loja, conversa animada sobre o clube

Liga dos Campeões

Mesmo com a suspensão do astro Frank Ribéry, Gustavo se diz confiante para a partida da final da Liga dos Campeões contra a Inter de Milão, em Madri, no dia 22 de maio. Esta confiança baseia-se, em grande medida, na expectativa de que o craque holandês Arjen Robben, na sua opinião o melhor jogador do clube no momento, seja mais uma vez decisivo, como em outras etapas da competição.

Acostumado a deixar sua irmã trabalhando no estabelecimento em dias de jogos decisivos da competição, Gustavo sequer vai abrir a loja na tarde do sábado, dia 22. A ideia é fazer uma concentração a partir do meio-dia, com um grande churrasco e muita confiança na conquista do quinto título europeu do maior clube da Alemanha.

Paixão clubística aparece até nas mercadorias

O empresário destacou que chegou a pesquisar e pensar em ir a Madri, para assistir a partida. No entanto, quando se mobilizou para isso não conseguiu ingressos para a partida. Gustavo lamenta o fato, mas ressaltou que vai se preparar para a próxima vez. “A próxima final é em Wembley (Londres) e em 2012 será no Allianz Arena (casa do Bayern)”, afirmou o empresário, esperançoso que o clube também chegue a estas decisões.

Embora confiante, Gustavo acredita que Inter, por ter uma defesa mais qualificada, é a favorita no confronto. Nada que os alemães não estejam acostumados a reverter na história. No lugar de Ribéry, deverá jogar o alemão naturalizado turco Hamit Altıntop, de excelente atuação na segunda partida da semifinal contra o Lyon.

Sacola personalizada

Brasil

No Brasil, Gustavo é corintiano. Questionado quando o time ainda estava na Libertadores, não conseguiu dizer para quem torceria em uma hipotética final de Mundial de Clubes entre o Bayern e Corinthians. “É muito cedo para pensar nisso. Sinceramente, nunca pensei nessa possibilidade”, frisou o empresário.

Como essa final não vai se concretizar, talvez nunca se saiba como Gustavo se comportaria. No entanto, há forte suspeitas dos signatários do blog que a equipe bávara seria a escolhida pelo seu coração.

Abraços,

Daniel Machado

(com a colaboração de Marcio Santos)

*As fotos são de Marcio Santos, com exceção da primeira, retirada do site oficial do Bayern (http://www.fcbayern.telekom.de)

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A avenida da discórdia

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Uma das coisas coisas que me chamou a atenção desde os primeiros meses aqui no Tocantins tem relação direta com o fato deste ser o estado mais “jovem” da federação: a dificuldade das pessoas em terem clareza para definir o que seria “tipicamente tocantinense”, o que constituiria a identidade regional deste pedaço do Brasil. Lembremos que o território que hoje constitui o Tocantins fazia parte de Goiás até pouco mais de duas décadas atrás, e que boa parte da população têm vínculos bem fortes com os estados do entorno, tais como o Pará e o Maranhão. Neste contexto, é difícil que qualquer coisa que seja apresentada como “típica”, seja esta algum tipo de alimento, uma festa ou uma dança, não seja alvo de disputas com os “vizinhos”, que sempre reivindicarão possuir tais saberes ou exercer tais práticas há mais tempo. Se consideramos a situação peculiar da capital, Palmas, fundada em 1989 e habitada por gente de todos os cantos do país, fica ainda mais evidente o quanto é difícil se chegar a quaisquer consensos acerca da “identidade tocantinense”.

É importante esclarecer, neste momento, que, como cientista social, me esforço para não alimentar ilusões quanto ao caráter “imemorial” e “autêntico” das tradições que contribuem para a construção das identidades de povos e lugares. Lembro sempre do historiador britânico Eric Hobsbawm, que, num famoso livro que organizou juntamente com o colega Terence Ranger mostrou como mesmo aquilo que achamos ser mais “original” pode ter sido manipulado conforme os interesses das elites políticas e intelectuais de um determinado momento histórico. Desta forma, Hobsbawm demonstra que tradições tidas como antigas muitas vezes são, na verdade, bastante recentes ou até mesmo “inventadas”. Tais “tradições inventadas” se consolidam tanto através de referências a situações anteriores como estabelecendo seu próprio passado, a partir de uma repetição quase obrigatória. Nas suas palavras, “a invenção das tradições é essencialmente um processo de formalização e ritualização, caracterizado por referir-se ao passado, mesmo que apenas pela imposição da repetição” (p. 167).

São inúmeros os casos que poderiam ser citados para ilustrar estas reflexões, mas por ora basta lembrar que, no citado livro, o historiador britânico mostra como as ditas “tradições escocesas” foram forjadas por um grupo de irlandeses que migraram para as Highlands e assim agiram para fundar uma memória inexistente e uma “tradição nacional”. No caso brasileiro, podemos destacar o caso do Movimento Tradicionalista Gaúcho, cujo surgimento remonta aos anos 40 do século passado, quando um grupo formado majoritariamente por jovens estudantes vindos do interior, oriundos de famílias de grandes proprietários rurais, se muda para Porto Alegre e passa a se reunir para cultuar um “passado campeiro” idealizado. Em outros termos, tratava-se da celebração de um modo de vida que jamais existiu exatamente daquela forma, mas que foi construído de uma forma tão ideologicamente poderosa que veio a ser difundido pelo Brasil e pelo mundo com o rótulo de “tradições gaúchas” (para mais detalhes, vejam este livro do antropólogo Ruben Oliven).

Pois bem, neste exato momento, aqui em Palmas, a capital do Tocantins, estamos vivenciando um debate para lá de interessante, diretamente relacionado com esta problemática da construção de tradições e identidades regionais. No último dia 07 de abril, a Prefeitura protocolou na Câmara Municipal um projeto de lei propondo a alteração do nome da maior avenida da cidade, que passaria a se chamar Governador Siqueira Campos, ao invés de Theotônio Segurado. O detalhe é que este último foi um jurista português com atuação em movimentos pela emancipação do norte goiano que remontam ao século XIX, enquanto o primeiro foi governador do estado por três mandatos, incluindo-se aí o período imediatamente seguinte à criação do Tocantins, após a promulgação da Constituição de 1988 (veja biografias resumidas de ambos aqui). Ou seja, de um lado um personagem histórico enquadrado em muitas narrativas oficiais como o “iniciador” do movimento que culminou com a separação do território goiano, de outro uma liderança política ainda atuante, mas também possuidora de importância neste processo histórico. Como Siqueira Campos ainda hoje é uma das principais figuras da oposição ao atual governador Marcelo Miranda (antigo aliado seu, mas isto é história para outro post), tal proposta vem despertando reações das mais diversas, com diferentes níveis de exaltação, indo desde a proposição de uma “Moção de Aplausos” por parte de um deputado que foi adversário do prefeito nas últimas eleições municipais até afirmações um professor para quem tal mudança faria a cidade “perder sua identidade”.

Sem negar as questões propriamente políticas envolvidas no projeto, que no mínimo acaba servindo para direcionar os holofotes da mídia para o prefeito de Palmas, gostaria de chamar a atenção para uma questão. Na minha opinião, uma proposição destas só é possível numa cidade e num estado nos quais os processos de construção de uma identidade regional se encontram num momento tão “incipiente” como este que vivemos aqui no Tocantins. Mal comparando, não acho que o Fogaça ou qualquer vereador de Porto Alegre sequer cogitem pensar em mudar o nome da avenida Bento Gonçalves para “avenida Leonel Brizola”, por exemplo. Assim, posso dizer que estou vendo com meus próprios olhos uma disputa que não é apenas política, mas também simbólica, um momento no qual Palmas e o Tocantins discutem acirradamente sobre seus ” pais fundadores”. Por um lado, me parece que o próprio debate atual será um momento crucial nesta trajetória de construção da “identidade tocantinense”. Por outro, sem querer me arriscar num exercício de futurologia mas já o fazendo, me parece que esta alteração, se realizada, poderia acabar “atrasando” a consolidação de um imaginário sobre os “heróis” do estado, uma vez que, mesmo não sendo tão conhecido pela população em geral, a figura de Theotônio Segurado não desperta as paixões partidárias e sectárias nas quais o nome de Siqueira Campos está sempre presente.

Ainda há “soluções alternativas” a serem propostas, como aquela apresentada por um vereador, sugerindo que a segunda maior avenida da cidade, chamada JK, seja a renomeada. Segundo ele, o mítico presidente não teria maior importância na história da emancipação do antigo norte goiano, o que, obviamente, já provocou reações, positivas e negativas

Por enquanto, o certo é que ainda há muita água por rolar nesse debate, e confesso que acho um tanto divertido poder acompanhá-lo de uma posição relativamente distanciada!

Abraços,
Marcio Santos

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