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Palmas no “tempo da política”: sugestões para observação e análise

Entre fins dos anos 80 e meados dos anos 90 do século passado começaram a ganhar destaque nas ciências sociais brasileiras os estudos antropológicos sobre a política, sendo que uma das principais características comuns entre estes trabalhos é a valorização de aspectos normalmente deixados em segundo plano pelos cientistas políticos. A ideia é demonstrar como há diferentes formas através das quais a política é vivenciada e percebida pelas pessoas, voltando o olhar mais para aspectos subjetivos e para as micro relações que permeiam o cotidiano do que para análises institucionais e dados estatísticos supostamente objetivos, permeados por uma certa concepção acerca da racionalidade dos agentes sociais.

Neste contexto, a partir de estudos etnográficos realizados em municípios do interior do Sul e do Nordeste, Moacir Palmeira cunhou o conceito de tempo da política. Trata-se, na verdade, de uma expressão “nativa” que, tendo uma considerável capacidade de explicar e definir certas peculiaridades das relações sociais nestes locais, pôde ser operacionalizada como um conceito teórico. O tempo da política é, basicamente, o momento ou período em que “as facções são identificadas e que, por assim dizer, existem plenamente, em conflito aberto” (PALMEIRA, Moacir e GOLDMAN, Marcio (orgs.). Antropologia, voto e representação política. Rio de Janeiro, Contra Capa, 1996: p.53). Assim, a opção por um candidato não é necessariamente a opção por um representante, mas sim a expressão da identificação com uma determinada facção. Temos, desta forma, uma escolha que não é apenas individual, indo até mesmo além das redes de relações sociais mais básicas nas quais o sujeito está envolvido. Em outro sentido, o tempo da política é também uma época de acirramento de ânimos, um tempo extraordinário que modifica as relações sociais cotidianas e chega a acirrar conflitos que aparentavam ter sido resolvidos.

Há quase oito anos morando em Palmas-TO, acredito que nunca percebi com tanta evidência as transformações trazidas pelo tempo da política quanto nas eleições municipais deste ano. Talvez em Porto Alegre-RS eu não percebesse isso com tanta clareza por não ter tanta proximidade com pessoas diretamente envolvidas com campanhas, mas acredito que o tamanho e a idade da cidade e a centralidade do poder público (maior empregador de pessoas e maior cliente das empresas) na vida social são fatores que não podem ser desconsiderados. Outro elemento que colabora muito com a explicitação dessa divisão faccional e do acirramento dos ânimos é, sem dúvida, o crescimento vertiginoso da utilização das redes sociais online (Twitter, Facebook etc.).

É evidente que se trata de um microcosmo que não pode ser tomado como representativo da população palmense como um todo, porém creio que uma análise do comportamento destas “elites formadoras de opinião” pode ser bem interessante para refletirmos e compreendermos os significados da política na vida daqueles que moram nesse pedaço do Brasil. Há amigos que pareciam próximos e chegam ao ponto de romperem relações por estarem agora em facções opostas, ou mesmo por não se dedicarem com o afinco visto como necessário ao “seu” candidato (e, por consequência, ao grupo que ele representa). Há aqueles que evitam se relacionar e se encontrar nesse período justamente para evitar que o tempo da política deixe feridas que não podem ser recuperadas. Espaços públicos e privados são interditados ou passam a ter outros significados para integrantes de uma determinada facção. Ocorre uma frequência a espaços e lugares da cidade até então desconhecidos por esta “elite” (o que vale tanto para os candidatos quanto para seus “militantes”). Vestimentas de determinadas cores ou padrões passam a sinalizar a adesão a um determinado grupo. Há os malabarismos argumentativos para justificar mudanças de posições e de parcerias. O uso de determinadas palavras ou expressões passa a ser regulado, considerando os vínculos faccionais de quem está falando. O dinheiro é visto com ambiguidade: nas mãos dos “nossos” é um recurso necessário para mover a campanha, nas mãos “deles” quase sempre é algo sujo e gerador de suspeitas de atos ilícitos, como a compra de votos. Existe uma forte tensão entre a profissionalização da militância paga e o valorizado idealismo dos apoiadores “espontâneos”, sempre permeada pelos compromissos (morais e financeiros) assumidos, cujo cumprimento depende do êxito eleitoral. Há, ainda, uma incompreensão da situação daqueles que não se aliam a uma determinada facção, situação que pode acarretar ataques e novos conflitos.

Enfim, são muitos os caminhos e enfoques que podem ser dados por quem se dedicar ao esforço intelectual de analisar o contexto social da capital tocantinense neste tempo da política. Seria possível, certamente, arriscar muitas hipóteses interpretativas para estes fenômenos sociais. Por ora, entretanto, podemos nos ater a uma conclusão baseada na observação do modus operandi do jogo político no Brasil: por mais tensões, conflitos e interdições que esta “época extraordinária” imponha aos atores sociais que nela se envolvem, é certo que a lógica de buscar a “governabilidade” fará com que, após o pleito, os eleitos procurem seus antigos adversários e rearranjem as facções que pareciam impossíveis de se conciliar. O que ocorrerá com os militantes, remunerados ou apaixonados, somente observações posteriores nos permitirão saber.

Abraços,

Marcio Santos

P.S.: Esta são minhas reflexões, que não necessariamente se coadunam com as opiniões dos demais signatários desse blog.

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Arquivado em Ciências Sociais, Politica, Reflexões