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O Censo e o “bom senso”

Hoje, por ossos do ofício, participei de uma reunião com o pessoal do IBGE, sobre o Censo 2010. Tratava-se, na verdade, da formação de uma Comissão Censitária Estadual, para a qual foram convidados representantes de universidades e diversos órgãos públicos, estaduais e federais, atuantes no Tocantins. Pensando bem mesmo, o que me chamou a atenção foi justamente o fato desta ser a primeira vez em que se pretende formar comissões destes moldes, pelo Brasil afora. Consta que antes existiam apenas umas comissões municipais, que eram um tanto quando desconexas entre si, justamente por falta de alguma instância que lhes desse orientação e apoio – este é o papel que pretende-se seja desempenhado pela tal Comissão Estadual. Achei isso interessante porque um órgão como o IBGE, responsável pela coleta de dados capazes de caracterizar a população em inúmeros aspectos e, consequentemente, subsidiar a formulação de políticas públicas, cumpre uma função primordial na estrutura do Estado. Imediatamente lembrei que num passado distante li algo que o Bourdieu escreveu sobre o assunto, e graças ao Google, localizei o trecho em questão, que está em Razões Práticas:

“O Estado concentra a informação, que analisa e redistribui. Realiza, sobretudo, uma unificação teórica. Situando-se do ponto de vista do Todo, da sociedade, ele é o responsável por todas as operações de totalização, especialmente pelo recenseamento e pela estatística ou pela contabilidade nacional, pela objetivação, por meio da cartografia, representação unitária, do alto, do espaço, ou simplesmente por meio da escrita, instrumento de acumulação do conhecimento (por exemplo, com os arquivos) e de codificação como unificação cognitiva que implica a centralização e a monopolização em proveito dos amanuenses ou dos letrados.” (p. 105)

(Segundo a Wikipedia, amanuense “é todo aquele que copia textos ou documentos à mão”, sendo que, “vulgarmente, considera-se amanuense o escriturário duma repartição pública ou estatal, que manualmente regista documentos ou os copia”.)

Assim, acho interessante que tantas instâncias do poder público tenham, segundo os relatos dos presentes na reunião, historicamente ficado numa posição de relativo desinteresse em relação aos recenseamentos. Afinal de contas, concordando com a leitura bourdiana sobre o assunto, para o bem ou para o mal o Estado precisa dessas informações. Mais do que isso, me chama a atenção que, ao invés de concentrar esforços num Censo que fosse capaz de dar conta de uma gama mais ampla de dimensões da realidade social, órgãos responsáveis por saúde e educação acabam por fazer seus próprios levantamentos. Talvez eu esteja desinformado, inclusive porque certamente há meandros da política interna e externa destas instituições que eu desconheço. Entretanto, me parece que este é mais um exemplo da falta de articulação entre as várias instâncias que compõem a burocracia estatal neste país (aqui me refiro à “burocracia” num sentido weberiano, que fique bem claro!)

Seja como for, tenho que registrar que a vontade de engajar-se no processo por parte dos representantes do poder legislativo estadual e dos municípios foi notável, e deve-se, basicamente a um simples fator: a distribuição do Fundo de Participação dos Municípios é proporcional à população de cada localidade. Acontece que na última contagem da população, em 2007, várias cidades, incluindo Palmas, a capital, ficaram com bem menos habitantes do seus administradores acreditavam ter. Com isso, os repasses diminuíram, e muitos atribuem a culpa disso ao IBGE, que, por sua vez, afirma não ter recebido o apoio necessário para a aplicação dos questionários, principalmente nos lugarejos mais isolados das zonas rurais. Agora, visando 2010, as lideranças políticas estão dispostas a garantir que sejam recenseados desde o agricultor que vive num rincão onde só é possível chegar a cavalo até o trabalhador urbano que passa 16 horas do dia longe de casa. O importante é achar estas pessoas, onde quer que elas estejam!

Enfim, acho que este é mais um processo que pode render uma experiência bacana, de vez em quando até mesmo podendo dar uns palpites!

Abraços,
Marcio Santos

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Arquivado em Ciências Sociais, Politica, Reflexões