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BBB e Sociedade do Espetáculo

O post do amigo Daniel sobre o Big Brother me levou a uma pequena reflexão sobre o assunto. Tenho o entendimento de que o sucesso do dito programa de TV nada mais é que uma espécie de reflexo de algumas características do modelo de sociedade no qual atualmente vivemos. Talvez eu esteja sendo excessivamente demodé ou até mesmo simplista, mas lembrei-me imediatamente de uma obra do francês Guy Debord, lançada em 1967, singelamente denominada A Sociedade do Espetáculo (disponível na íntegra aqui). Para esclarecer do que trata o livro, faço uso de um trecho da introdução escrita por Anselm Jappe:

O “espetáculo” de que fala Debord vai muito além da onipresença dos meios de comunicação de massa, que representam somente o seu aspecto mais visível e mais superficial. Em 221 brilhantes teses de concisão aforística e com múltiplas alusões ocultas a autores conhecidos, Debord explica que o espetáculo é uma forma de sociedade em que a vida real é pobre e fragmentária, e os indivíduos são obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens de tudo o que lhes falta em sua existência real.

Têm de olhar para outros (estrelas, homens políticos etc.) que vivem em seu lugar. A realidade torna-se uma imagem, e as imagens tornam-se realidade; a unidade que falta à vida, recupera-se no plano da imagem. Enquanto a primeira fase do domínio da economia sobre a vida caracterizava-se pela notória degradação do ser em ter, no espetáculo chegou-se ao reinado soberano do aparecer. As relações entre os homens já não são mediadas apenas pelas coisas, como no fetichismo da mercadoria de que Marx falou, mas diretamente pelas imagens.

Creio que, tomando por base tais idéias, podemos compreender um pouco melhor o sucesso do BBB. Vejamos: tratam-se de situações, interações e conflitos aparentemente próximos daqueles vivenciados pelas “pessoas comuns” no cotidiano, todavia “interpretados” por sujeitos cuidadosamente selecionados para “representar” aqueles que estão assistindo (inclusive correspondendo a uma série de expectativas em torno de padrões de beleza corporal) e difundidos através de uma cuidadosa e caprichada edição, capaz de tornar até mesmo o fato mais “banal” interessante. Além disso, não podemos esquecer que a edição usa “técnicas novelescas” para prender a atenção do espectador: as imagens são trabalhadas de tal forma que logo identificamos “heróis”, “vilões”, “loucos” e todos aqueles papéis estereotipados com os quais já estamos habituados.

Indo um pouco mais além, acho importante nos darmos conta de que esse processo de “espetacularização” é bem mais profundo, definitivamente transcendendo em muito o BBB. Apenas para ficarmos num exemplo, basta lembrarmos da recente polêmica sobre a gravação do programa Survivor, da rede norte-americana CBS, na região do Jalapão, aqui no Tocantins. Rapidamente começaram a circular pela rede emails questionando supostas “ameaças à soberania nacional” e “depredações do nosso meio-ambiente”, refletindo sentimentos nacionalistas e anti-americanos dos brasileiros. Tudo isto, é claro, sem mencionar que tal projeto foi licenciado e aprovado pelo órgão ambiental do Governo do Estado, o qual deveria ser responsabilizado caso algo de errado fosse constatado. Entretanto, não é este o ponto que pretendo destacar: o que mais choca, na minha opinião, é perceber quea gravação de um reality-show, cujos impactos são relativamente pequenos, ou, ao menos, em sua maioria reversíveis, cause essa celeuma toda na dita “opinião pública”, enquanto os inúmeros projetos de irrigação e as gigantescas plantações de soja que são executados sem qualquer respeito ao meio-ambiente (na maior parte das vezes com MUITA grana dos tais estrangeiros, também) não tem um quinto dessa repercussão, e ainda são vistos, genericamente, como sinais de “progresso”.

Tipico intelectual francês dos anos 60!

Típico intelectual francês dos anos 60!

Abraços,
Marcio Santos

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Arquivado em Mídia, Reflexões